sexta-feira, 6 de abril de 2012

2a feira atípica

Desde estagiária, descobri num day off que o mundo é bem maior do que parece. Adotei esta prática sempre que consigo dar uma fugidinha do escritório para fazer umas andanças pela cidade.


100% das vezes meu destino é o centro e redondezas.
A idéia é me apertar no transporte público para interagir com as pessoas e conseguir enxergar um pouco mais desta outra realidade que grita aos meus olhos míopes.


Escolhi a dedo uma roupa bem fuleira (camisa que não gosto + calça que não uso muito + tênis + bolsa simples e razoável para caber as coisas que ia comprar) e, de cara lavada, fui me aventurar.
Na fila da bilheteria do metrô, uma senhora puxa papo comigo. Comentou que a fila estava muito grande e que a maioria dos dias era só chegar e comprar.
Eu: "Hoje é segunda-feira e provavelmente a maioria das pessoas devem ter gasto seus bilhetes no final de semana!"
Ela: (depois de uma risadinha): "Eu tinha 4. Gastei tudo!".


Rumo à Sé, minha primeira parada, andei todo o percurso em pé. O metrô não estava abarrotado, mas estava bastante cheio de pessoas de todos os tipos - desde uma loira gorda e extremamente maquiada até um adolescente indo à escola.
Perto da na minha estação, perguntei para uma japonesa ao meu lado se ela ia descer ali. Ela: "Todo mundo vai descer". Se empolgou comigo e comentou que achou que o metrô naquele dia estava andando muito devagar. Ao parar na estação, ela ficou feliz de estar bem em frente da escada que a leva direto para a porta mais perto de seu destino.
(Fiz uma analogia ao meu "caminho da roça", o qual mudo cuidadosamente de faixa na rua, pois já sei qual anda mais e em qual pedaço da rua. Cada um se adaptando no meio que vive, não?!)


Cheguei na Sé e me preocupei em não fazer uma cara de E.T. para não transparecer que não pertencia àquela rotina diária.


Não tive como me emocionar ao ver um rapaz tocando piano no meio da estação. Saquei meu iPhone e comecei a tirar foto sem ele perceber. Ao acabar a música, ele simplesmente saiu como alguém que levanta de uma lanchonete depois de tomar um refrigerante e, logo em seguida um senhor sentou lá para tocar na sua vez.
Nunca imaginei que veria um piano numa estação de metro e, ainda por cima, concorrido!


Passei na frente da Catedral. Infelizmente há muitos mendigos e, minha condição atual me amedronta de me expor tanto assim. Infelizmente não saquei meu celular para fazer mais registros fotográficos. Fica para a próxima.


Entrei na R. Barão de Paranapiacaba para: 1. mandar polir minhas pratas e 2. ver se tinha alguma coisa interessante, apesar de estar satisfeita com meus atuais acessórios.
Como já fui algumas vezes lá, sei exatamente quais as lojas que vendem o que eu gosto, o pulgueiro onde mando polir e por aí vai. Finalmente achei minha querida corrente comprida estilo "Rabo de Rato", 80 cm. Peguei o cartão e agora não esqueço mais!









Deixei minhas coisas lá e tinha algumas horinhas para andar pelo centro até voltar e pegar minhas pratas brilhando mais do que nunca.

Peguei as vias peatonais e segui meu caminho. Passei perto da Igreja de Santo Antonio, santinho que minha mãezinha é fervorosamente devota e resolvi entrar. Rezei um pouco por mim, pela minha casa, meu amor, minha família, trabalho, enfim, tudo e todos ao meu redor. Sempre é bom ter uma bênção de alguém de lá de cima, né?! Peguei todas minhas moedinhas e depositei na doação do pão de Santo Antonio que todo ano como pelo menos um pedacinho. Só sempre acho uma pena que as imagens da igreja sejam tão sofridas. A vida é tão maravilhosa, por que sempre valorizar o lado ruim dela?

Parede com parede com a Igrejinha fica a Faculdade São Francisco ou, para os mais íntimos, a Sanfran. Por anos a fio na minha adolescência meu sonho era entrar lá e trilhar uma brilhante carreira na área de Direito. O curioso é que idealizei tanto aquele lugar e principalmente a faculdade e nunca havia entrado lá. Ando repensando em tantas coisas da minha vida e pensei "Por que não?" adentrar lá e tentar resgatar um sonho idealizado (felizmente) não resolvido.
Tudo estava muito calmo e aparentemente não havia aula aquele dia. Não me arrisquei em perguntar, só fui desbravando corredor por corredor, sala por sala buscando respostas para meus questionamentos.As estátuas e esculturas ali transpiravam a mais pura tradição paulistana. Aquele cheiro de mofo de biblioteca velha estava por todos os cantos daquele lugar. Visitei um tal museu, quanta pobreza de história e de objetos mal conservados. Nas salas de aula haviam cadeiras com mesas de um braço só, lousa verde (ainda de giz) e, na mesa do professor, uma cadeira daqueles encostos que vão até o pescoço, toda imponente (naquele contexto), com estofado de couro e tachas de metal. 
Fiquei pensando como o ego dessa gente infla de acordo que aprendem algumas leis a mais dos outros.
O contraste entre o antigo vs. o novo escrachado de má qualidade me chocou ao atravessar uma passarela improvisada entre os dois prédio. Uma enorme faixa "Faltam x dias para os Jogos Jurídicos" manchavam a herança dos conservadores. (Como tudo ficou banal?)

Passarela improvisada / Peça do museu / Vista da varanda do Museu da San Francisco

Museu da San Francisco



Saí e segui meu caminho. Ainda continuo com alguns pensamentos:


1. Meu maior golpe de sorte foi ter bombado no vestibular de Direito
2. Tenho que ouvir mais minha voz interior
3. É importante quebrar a rotina para enxergar o mundo que existe além da nossa bolha
4. Existe vida durante o horário comercial fora do escritório
5. O Brasil que conheço não é o Brasil da maioria
6. Sempre temos muito o que aprender


Depois de pegar o metrô da volta, entrei no estacionamento, paguei minha diária, liguei o ar condicionado e fui para meu apartamento preparar o almoço.



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